Polígono da Maconha é uma região do Sertão nordestino brasileiro, abrangendo áreas do oeste de Pernambuco e norte da Bahia, caracterizada pelo cultivo histórico de Cannabis sativa (maconha) e por altos índices de violência associados ao tráfico ilegal. Estudos indicam que as condições climáticas e de solo da região são excepcionalmente favoráveis ao cultivo da planta, e que a maior parte da violência decorre diretamente da proibição, não do consumo ou da planta em si.
Definição e abrangência geográfica
Não há consenso absoluto sobre a lista exata de municípios que compõem o Polígono da Maconha, mas ele é tradicionalmente associado à região do Submédio e Baixo Rio São Francisco. De acordo com um relatório da Corregedoria-Geral do Ministério Público de Pernambuco (1997), o polígono seria formado pelos municípios pernambucanos de Floresta, Belém do São Francisco, Cabrobó, Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Tacaratu, Petrolândia, Itacuruba e Carnaubeira da Penha. Outras fontes incluem também Salgueiro, Mirandiba, Serra Talhada, Ibimirim, Betânia (em Pernambuco) e, na Bahia, os municípios de Juazeiro, Curaçá, Glória e Paulo Afonso. A cidade de Petrolina, embora não seja uma grande produtora, é considerada um importante centro de tráfico e consumo devido à sua localização geográfica estratégica e desenvolvimento econômico.
História
Primeiros registros e usos tradicionais A presença da Cannabis na região do Vale do São Francisco remonta ao século XIX. Em 1867, o explorador inglês Richard Francis Burton, navegando pelo rio, identificou a planta e notou que o clima e a vegetação locais eram propícios ao seu cultivo comercial, especialmente para a indústria têxtil (fibra do cânhamo). Nas décadas seguintes, o uso da maconha (então chamada de "diamba" ou "liamba") se disseminou entre populações tradicionais, como barqueiros e pescadores, sendo frequentemente fumada em cachimbos conhecidos como "maricas". Nos anos 1930, o médico Jarbas Pernambucano documentou a existência de plantios destinados ao abastecimento dos nascentes mercados consumidores de Salvador e Recife. Nos anos 1950, o sociólogo Donald Pierson, em seu livro O Homem do Vale do São Francisco, descreveu o uso coletivo da erva e a existência de plantações em pelo menos cinco localidades, além de relatar os primeiros indícios de tráfico interestadual.
Condições ambientais para o cultivo A região do Polígono da Maconha reúne fatores naturais considerados excepcionais para o cultivo da cannabis. Segundo estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) em parceria com a startup ADWA (2020), o bioma da Caatinga apresenta a maior aptidão agrícola para a espécie entre todos os biomas brasileiros, devido à alta incidência de radiação solar, solo bem estruturado com boa retenção de água e nutrientes, e a disponibilidade de irrigação a partir do Rio São Francisco. Essas condições permitem a obtenção de até três safras por ano, diferencial que gera interesse de empresas internacionais do setor de cannabis medicinal e industrial.
Expansão do cultivo e origem do nome O cultivo em escala comercial intensificou-se a partir da década de 1970, impulsionado por um conjunto de fatores: a construção de hidrelétricas (como Sobradinho e Itaparica) que deslocou milhares de agricultores familiares, o crescimento do agronegócio irrigado para exportação (que não absorveu a mão de obra local) e o aumento da demanda por maconha associado ao movimento contracultura no Brasil. Foi nesse período que a região passou a ser pejorativamente chamada de "Polígono da Maconha". Nos anos 1980 e 1990, o Polígono atingiu seu auge, tornando-se o maior polo produtor do país, com estimativas de que 40% da maconha consumida no Brasil vinha da região, principalmente das chamadas "sativas" populares como "Manga Rosa", "Cabeça-de-nego" e "Cabrobó". O pesquisador Paulo Cesar Fraga, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), estima que a produção local abastecia as capitais e o interior do Nordeste, além de parte das regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Violência e a guerra às drogas A partir do final dos anos 1980, a região tornou-se palco de violência extrema, frequentemente comparada ao cangaço. Em 1998, Carnaubeira da Penha apresentou taxa de homicídios de 145,06 por 100 mil habitantes, e Floresta, 127,49 — superior à do Rio de Janeiro no mesmo período. Estudos acadêmicos e análises de política de drogas apontam que o principal fator gerador dessa violência não é a maconha em si, mas sim sua proibição. Segundo o advogado e especialista Vladimir Saboia, "erradicar, essa palavra sempre utilizada pela polícia e imprensa, é um tanto irônica [...] a proibição federal em 1938 foi inócua". A criminalização da produção e do comércio cria um mercado paralelo violento, controlado por facções armadas, sem qualquer mecanismo estatal de regulação. Os conflitos entre clãs familiares — como a rixa Benvindo-Araquan em Belém do São Francisco — eram financiados com os lucros do tráfico e serviam para disputar o controle de rotas e pontos de venda, fenômeno típico dos mercados ilícitos. Quando o Estado investe em repressão (como na Operação Mandacaru), o resultado é o deslocamento do cultivo, o encarceramento em massa de pequenos agricultores (raramente dos verdadeiros chefes) e a manutenção da violência, enquanto a demanda permanece inalterada. Dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e do Anuário da Segurança Pública (2021) mostram que o Brasil se tornou a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 820 mil presos, a maioria por tráfico de drogas, sendo sete em cada dez negros ou pardos e com baixa escolaridade. Esse perfil corresponde exatamente ao dos pequenos agricultores e trabalhadores rurais do Polígono da Maconha, que recorrem ao plantio ilícito como complemento de renda diante da falta de políticas públicas consistentes.
Potencial econômico e debates sobre legalização Especialistas apontam que as mesmas condições naturais que tornaram o Polígono alvo da repressão — clima, solo e água — poderiam transformá-lo em um polo global de produção legal de cannabis para fins medicinais, industriais (fibras, biocombustíveis, construção civil) e até recreativos. O sociólogo Paulo Fraga defende que, num cenário de legalização, a região teria o monopólio da produção no sistema de agricultura familiar, gerando desenvolvimento, empregos e arrecadação de impostos. Estudo da consultoria Kaya Mind (2023) estima que a legalização da maconha no Brasil poderia gerar 117 mil empregos diretos e indiretos e movimentar até 26 bilhões de reais em quatro anos. Mais de 430 mil pacientes já utilizam cannabis medicinal no país, mas todo o produto é importado, com preços elevados, enquanto agricultores do sertão são presos por plantar o mesmo princípio ativo. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria (5 votos a 1) pela descriminalização da posse de maconha para uso pessoal (RE 635.659), aguardando conclusão. O Projeto de Lei 399/2015, que legaliza o plantio para fins medicinais e industriais, foi aprovado na comissão especial da Câmara dos Deputados em 2021, mas desde então aguarda votação no plenário.
Ver também Cannabis no Brasil Guerra às drogas Proibicionismo Operação Mandacaru Vale do São Francisco
Referências
Ligações externas Reportagem "Os lados do Polígono da Maconha" - Agência Pública Artigo "O Polígono da Maconha" - Le Monde Diplomatique Brasil