☀️ Um quilômetro de asfalto tentou virar usina solar

A França apostou que carros passando por cima de painéis solares gerariam energia limpa em escala. Os números que vieram depois contam outra história. ⬇️

A França decidiu revolucionar o asfalto e transformar um trecho de rodovia normanda em fonte de eletricidade. O governo investiu cinco milhões de euros para cobrir 2.800 metros quadrados com Wattway, painéis solares colados direto na pista. A promessa era iluminar uma cidade de 5 mil habitantes. Depois de oito anos de testes reais, a conta revelou um resultado bem diferente do que a inauguração prometia.

Como funcionava a estrada solar da França?

A pista usava dalhas fotovoltaicas revestidas por uma resina resistente, coladas direto sobre o asfalto existente. O projeto nasceu em Tourouvre-au-Perche, na Normandia, e foi inaugurado em 22 de dezembro de 2016 pela então ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal. A empresa Colas desenvolveu a tecnologia ao lado do Instituto Nacional de Energia Solar da França, após cinco anos de pesquisa.

A ideia fazia parte de um plano maior do governo francês, que chegou a falar em cobrir mil quilômetros de rodovias com o mesmo sistema.

O fracasso da rodovia coberta por painéis solares na França - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Por que o trânsito prejudicou o desempenho da pista solar?

O problema começou na própria função da via. Uma estrada precisa suportar peso, atrito e chuva, enquanto um painel solar pede estabilidade e exposição direta à luz. Sombra de carros, sujeira, folhas caídas e vibração constante reduziram a eficiência da superfície captadora ano após ano.

Essa combinação de fatores comprometeu a produção de forma silenciosa, porém constante. Veja o que mais pesou contra o desempenho da estrada solar francesa:

- Sombra projetada pelos próprios veículos sobre os painéis

- Acúmulo de sujeira, poeira e folhas caídas na pista

- Vibração e atrito constantes, que desgastaram as juntas

- Posição horizontal das células, desfavorável à captação solar

Esses desgastes também apareceram nas ruas. As autoridades locais reduziram a velocidade máxima do trecho para 70 km/h, numa tentativa de proteger o revestimento frágil da pista solar.

Some a isso a distância entre expectativa e realidade financeira do projeto. Os números abaixo mostram o tamanho dessa diferença, ano após ano:

📊 A conta que não fechou

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Custo por watt

Cada watt de pico saía por cerca de 17 euros na estrada, contra 1,30 euro em grandes telhados solares e menos de 1 euro em usinas no solo.

Produção em queda

De 149.459 kWh no primeiro ano, a geração caiu para 78.397 kWh em 2018 e somou apenas 37.900 kWh no primeiro semestre de 2019.

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Receita frustrada

A previsão era faturar 10.500 euros por ano. Vieram 4.550 euros em 2017 e apenas 3.100 euros em 2018.

Dados divulgados pela Wattway e retomados pelo Departamento do Orne, na França.

Qual foi o desfecho do experimento da Wattway na França?

O desfecho chegou aos poucos, entre remendos e admissões públicas. Em maio de 2019, cerca de 100 metros do trecho foram retirados porque o desgaste não permitia mais reparos razoáveis. As juntas se romperam, alguns painéis começaram a descolar do asfalto e tempestades chegaram a provocar falhas elétricas na instalação. Em entrevista, o executivo Étienne Gaudin, da própria Wattway, reconheceu que o modelo testado ali não chegaria a ser comercializado.

Anos depois, em 2024, a prefeitura de Tourouvre-au-Perche decidiu encerrar de vez a experiência e retirar o restante das placas, sem custo adicional para o município.

Segundo o Departamento do Orne, a fase seguinte trocou parte das placas por versões mais recentes entre 2020 e 2021, mas o objetivo real era entender o envelhecimento dos materiais, não provar viabilidade comercial em larga escala.

Depois do fracasso na estrada, a Wattway não abandonou a tecnologia, apenas mudou de rota. A empresa passou a mirar superfícies menores, mais fáceis de manter secas e limpas:

- Marquises e coberturas de estacionamento

- Câmeras de vigilância isoladas

- Passagens de pedestres e ciclovias

- Pontos de recarga para bicicletas elétricas

Mesmo nesses usos pontuais, a eletricidade gerada pelos módulos ainda custava entre cinco e seis vezes mais do que a de painéis fotovoltaicos convencionais.

O que essa aventura energética ensina para o futuro?

A lição central não é que a energia solar falhou, mas que o lugar escolhido para captá-la importa tanto quanto a tecnologia em si. Um telhado bem orientado, parado e limpo, produz mais eletricidade por um custo muito menor do que qualquer pista sob rodas. A França ainda pesquisa novas versões da estrada solar, mas hoje prioriza zonas de baixo tráfego, como ciclovias e estacionamentos, onde o atrito é bem menor.

Vale a pena repetir esse tipo de projeto solar?

Vale, sim, mas só quando o local escolhido respeita a lógica da própria energia solar. A experiência francesa provou que inovação bonita no discurso pode custar caro demais na prática. Antes de sonhar com rodovias futuristas, vale mais testar em pequena escala o telhado livre que já existe na sua casa ou no seu trabalho.