Christa Pike em 12 de janeiro de 2023. — Foto: TDOC via AP
Christa Gail Pike, condenada à morte por assassinato, passou por uma execução frustrada nesta quarta-feira (30), no Tennessee, nos Estados Unidos. Segundo os advogados dela, Pike recebeu duas doses de pentobarbital, um barbitúrico que, em doses altas, provoca coma e, em seguida, a parada da respiração e do coração. No entanto, ela continuou respirando e foi levada a um hospital.
Pike, de 50 anos, seria a primeira mulher executada no estado em mais de 200 anos. Ela foi condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19, cometido em Knoxville em 1995, quando tinha 18.
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A execução estava marcada para as 10h, mas um tribunal de apelações a suspendeu uma hora antes do horário previsto. Horas depois, a Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão, e o procedimento foi realizado à noite. Porém, terminou fracassada.
O que é o pentobarbital e como ele age no corpo?
O pentobarbital pertence aos barbitúricos, classe de medicamentos inventada no fim do século 19. Ele funciona como um sedativo de ação curta e, por décadas, foi usado como anestésico, para induzir o sono e para controlar convulsões.
Seu uso terminou proibido e ele foi trocado pelos benzodiazepínicos por causa do risco, inclusive de vício.
Os barbitúricos são depressores do sistema nervoso central: reduzem a atividade de diferentes funções do cérebro, e o efeito cresce conforme a dose. Em quantidades menores, acalmam e evitam convulsões. Com mais droga, induzem o sono e, depois, a anestesia.
Em doses ainda mais altas, as usadas para casos de eutanásia e execuções, como no caso de Pike, o efeito suspende os comandos que mantêm o corpo vivo, como a respiração e a circulação -- o que leva a pessoa a morte. A droga é conhecida por trazer uma morte rápida nesses casos.
Era esse o roteiro que as testemunhas esperavam ver. John North, jornalista da emissora WBIR, afiliada da NBC News, contou que imaginava ver a respiração de Pike se alongar, com pausas cada vez maiores, até cessar. Quando as persianas da sala foram fechadas pela segunda vez, às 20h05, ela ainda respirava e, em alguns momentos, roncava.
"A respiração dela não estava bem. Estava meio forçada, ofegante", relatou North ao deixar a penitenciária.
Pike foi levada ao hospital, mas desde a tentativa de execução não se falou mais sobre seu estado de saúde.
Pike foi levada ao hospital, mas desde a tentativa de execução não se falou mais sobre seu estado de saúde.
O que a defesa aponta como causa da falha
Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, classificou o episódio como único e sem paralelo. Segundo ela, outras sete pessoas já sobreviveram a execuções malsucedidas no país, mas em todos esses casos as equipes não conseguiram acessar uma veia para aplicar os medicamentos. Ninguém havia continuado vivo depois de recebê-los.
O Departamento de Correções do Tennessee ainda não explicou o que ocorreu. A porta-voz Dorinda Carter disse às testemunhas que não tinha informações imediatas sobre o caso.
Os advogados de Pike afirmam que os problemas foram anunciados antes do procedimento. Em comunicado, listaram acesso venoso difícil, veias rompidas, pentobarbital degradado e ausência de atendimento médico de emergência, "tudo isso sob um protocolo que continua envolto em sigilo".
Não é a primeira vez neste ano que o estado esbarra na aplicação da droga. Em maio, a execução de Tony Carruthers foi cancelada depois de mais de uma hora de tentativas frustradas de encontrar uma veia para aplicar o pentobarbital.
Na noite de quarta, a defesa de Pike pediu à Suprema Corte que interrompesse a execução. O argumento foi que ela sofria uma "agonia desnecessária" e que seu direito de não ser submetida a punições cruéis e incomuns estava sendo violado. Os advogados também recorreram ao Tribunal de Apelações do Sexto Circuito e a um tribunal distrital, pedindo que o Departamento de Correções adotasse medidas para salvar a vida dela.
O crime de 1995 e o "pânico satânico"
Pike e o então namorado foram condenados pelo espancamento e esfaqueamento de Colleen Slemmer. Os três eram colegas em uma instituição de treinamento profissional em Knoxville.
O caso ganhou repercussão nacional por causa de detalhes como um pentagrama gravado no corpo da vítima. Esses elementos alimentaram o chamado "pânico satânico", onda de temor sobre cultos satânicos que marcou os EUA nas décadas de 1980 e 1990.
Depois da falha, o governador Bill Lee ordenou uma investigação independente e suspendeu as execuções no estado até o fim do ano. Havia apenas mais uma prevista para o período.
A investigação terá de esclarecer onde o procedimento falhou: no acesso à veia, na qualidade da droga ou no protocolo, que segue sob sigilo. Com duas execuções frustradas em cinco meses, o Tennessee entra na pausa decretada por Lee sem saber se o problema está na técnica de aplicação ou na substância escolhida para garantir uma morte rápida.


