Manoela Alcântara

PF aponta que Ibaneis, como acionista controlador do BRB, "não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais"

Manoela Alcântara, Pablo Giovanni, Isadora Teixeira

09/10/2026 18:56
LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES
A Polícia Federal (PF) apontou “interferência política direta” do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) na negociação considerada fraudulenta pelos investigadores entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 28 de setembro, com o sigilo derrubado nesta sexta-feira (9/10), a PF analisa que, diante de mensagens, fatos e tratativas, os elementos probatórios indicam que Ibaneis, na qualidade de acionista controlador do BRB, “não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais, tendo atuado de forma direta na:
- Autorização dos montantes do aumento de capital
- Definição da estratégia de expansão
- Validação de decisões operacionais críticas
- Articulação com agentes privados envolvidos na operação.”
Para a PF, “as comunicações demonstram que decisões estratégicas relevantes eram submetidas previamente à sua apreciação (de Ibaneis), antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública“.
Afirma ainda que a atuação do ex-governador é indicativa de “captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público”.
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Conversas
No mesmo documento, ao analisar as conversas entre Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, com Daniel Vorcaro, a PF identificou que já em outubro de 2024, Paulo Henrique manifesta preocupação com repercussões no mercado sobre o aumento de capital do BRB para comprar o Master e enfatiza a necessidade de “dar sinais ao mercado”.
As mensagens são trocadas em proximidade temporal com a autorização, pelo acionista controlador, do aumento de capital de R$ 750 milhões, na proporção 40/60, já submetida ao Conselho de Administração.
Paulo Henrique, segundo a PF, indica que a decisão estratégica já se encontrava amadurecida, sendo o anúncio tratado como questão de oportunidade e comunicação, e não de deliberação.
Ao falar com Vorcaro sobre “a reestruturação que você está fazendo no Master” e a “entrada de novos sócios”, Paulo Henrique esclarece que o objetivo seria “preparar a história toda que vamos contar em 3 meses da consolidação e do novo banco”. Para a PF, isso evidencia a existência de narrativa pré-definida de integração societária e operacional.
Na sequência, Paulo Henrique afirma que “ontem, na conversa com o governador, abordamos isso”, destacando que foi apresentada a entrada de novos sócios como elemento que “vai ajudar os dois bancos a serem maiores e gerar mais resultados”, o que demonstra ciência e validação política da estratégia de consolidação, ainda que os atos formais e regulatórios estivessem em fase subsequente de implementação. Veja diálogo:
Para a Polícia Federal, o conjunto dos elementos indica que, já em outubro de 2024, a aquisição e integração do Master ao BRB estavam definidas no plano estratégico decisório, com o aumento de capital e o desenho acionário funcionando como etapas preparatórias para a consolidação futura.
“Destaca-se que em exatos 3 meses, após a provação do Aumento de Capital, se iniciaram as tratativas entre o governador Ibaneis, Daniel Vorcaro, Paulo Henrique para aquisição do Master pelo BRB”, conclui a PF.
Encontro na Suíça
O relatório da PF ainda traz um encontro de Ibaneis com Vorcaro em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro do ano passado. A reunião, segundo os investigadores, foi o marco inicial do processo de aquisição do Master pelo BRB.
Além do governador e do banqueiro, participaram o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e uma pessoa identificada no trecho do relatório apenas como Leonardo.
O encontro é citado em uma análise de mensagens extraídas dos celulares de Paulo Henrique e Vorcaro, apreendidos na Operação Compliance Zero.
“Amigo, quando vc vem a Zurique? O Governador pediu para marcarmos uma reunião”, escreveu Paulo Henrique em 20 de janeiro. Em seguida, perguntou: “Como está seu jantar na quinta?”.
Vorcaro confirmou a disponibilidade, e Paulo Henrique respondeu: “Excelente! Marcado, meu amigo”.
Em 23 de janeiro, Paulo Henrique encaminhou o link de um restaurante e escreveu: “Vou na frente com o Governador e o Léo para esse e te esperamos lá”.
Vorcaro respondeu com uma mensagem que indicava “Kronenhalle 20h30”, acompanhada de um símbolo de confirmação. Disse que havia reservado aquele restaurante, mas que encontraria o grupo onde estivesse.
“Vamos no seu restaurante”, respondeu o então presidente do BRB. Questionado sobre o número de participantes, Paulo Henrique informou que seriam quatro pessoas.
Em outra mensagem naquele dia, Paulo Henrique escreveu: “Estamos com mais demanda de captação do que lastro. Talvez tenhamos uma oportunidade de comprar de DII do Master. Pedi para procurarem seu tesoureiro”.
O trecho não explica o significado de DII do Master, mas a PF atribui a uma nova operação do BRB com o banco de Vorcaro.
“Já estou querendo dizer nosso tesoureiro”, acrescentou.
“Espero que tenha gostado do jantar”, escreveu o ex-dirigente do banco distrital. Vorcaro respondeu: “Gostei muito”.
Três dias depois, em 26 de janeiro, Vorcaro encaminhou uma mensagem do jornalista Lauro Jardim questionando se o BRB estava se tornando sócio do Master.
“De onde veio isso?”, perguntou Paulo Henrique. Na sequência, afirmou: “Não ampliamos em nada o escopo das pessoas envolvidas no deal”.
“Voltei na sexta da Suíça e não sei se o Governador ou Léo estiveram com alguém”, acrescentou.
Segundo a PF, a conversa revela a preocupação de Paulo Henrique com a possibilidade de “Ibaneis ou Léo” terem divulgado as tratativas de aquisição do Master pelo BRB.
A reportagem acionou a defesa do ex-governador e aguarda retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.


