Andreza Matais

Nova esquerda saída das urnas tem mais a ver com a nova direita do que gostaria de admitir; inovações surgem fora da órbita do lulismo

Andre Shalders
05/10/2026 16:16
Reprodução/Câmara dos Deputados.
É clichê de jornalista político apontar a falta de renovação da esquerda. “Lula é sombra de mangueira: não deixa nada nascer embaixo”, diz a cantilena. A ladainha é parcialmente verdadeira, pois, aos 80 anos, o petista não indicou herdeiro direto para assumir o comando do campo político do qual é o maior representante.
A eleição deste domingo (4/10), no entanto, trouxe uma boa notícia para a esquerda neste assunto. Em meio à vitória acachapante da direita na eleição congressual, apareceram, aqui e ali, quadros novos de esquerda com potencial para levar adiante este campo político.
Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) teve votação consagradora: 1,59 milhão de sufrágios para deputada federal. Em Pernambuco, o youtuber stalinista Jones Manoel (PSOL) foi o 2º mais votado do Estado. E, no Rio, Elias Jabbour se elegeu para a Câmara pelo PCdoB com o apoio de 103 mil cariocas.
Os três têm ideias e visões de mundo bem diferentes. Jones Manoel é crítico do lulismo; Erika Hilton, não; e Jabbour, não. Hilton é identitária; Jabbour e Jones falam mais sobre o conflito distributivo.
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Goste ou não das ideias deles, o fato é que eles as têm. São eleitos com voto de opinião, não de máquina. E mais: são nativos digitais, fluentes na comunicação virtual, vindos dessa arena. Nenhum deles foi líder sindical em São Bernardo do Campo (SP); nenhum deles representa uma categoria profissional organizada. Não são quadros orgânicos do petismo; são animais políticos de outra espécie.
Nesse sentido, são mais parecidos com seus pares de direita que também vieram das redes sociais do que gostariam de admitir. A base material de poder dos dois é a mesma: os algoritmos de recomendação das redes sociais.
Enquanto isso, o que o petismo raiz tem a oferecer? Zé Dirceu e Delúbio Soares? Os dois foram derrotados nas respectivas eleições. Também perderam Gleisi Hoffmann, Randolfe Rodrigues, Paulo Pimenta… a lista segue.
No Distrito Federal, Max Maciel (PSOL) se tornou o deputado distrital mais votado da história. Fábio Félix, também do PSOL, foi o deputado federal mais votado deste pleito.
Em comum, os dois souberam agregar votos de eleitores brancos de classe média e classe alta do Plano Piloto com apoio do eleitorado da periferia. Desconfio que fizeram isso escolhendo pautas que falam dos problemas da vida real em Brasília: preço dos aluguéis (Fábio Félix) e transporte público (Max Maciel). Ambos também têm presença online importante e são fluentes em redes sociais.
Enquanto isso, a primeira-dama Rosângela Janja da Silva, aquela que tem uma cadela chamada Paris, exala preconceito ao chamar a senadora eleita Michelle Bolsonaro de “Bolsonara da Ceilândia”. Qual o problema de morar em Ceilândia, dona Janja?
A senhora já viu quanto custa morar no DF? Se não sabe, pergunte ao Fábio Félix. Ele entendeu que há um problema aí.
E, de novo: nem Fábio Félix nem Max Maciel vieram das bases tradicionais do petismo (sindicalismo, funcionalismo público). Fábio Félix é servidor público, mas não fez carreira como um representante de uma categoria.
Tudo isso para dizer que é miopia afirmar que não há renovação na esquerda. Há, sim. Só não é a que o cacicado boomer do petismo quis. A próxima esquerda que vem aí não terá nada a ver com a antiga.


