Aos 83 anos, Arnaldo Cezar Coelho assumiu seu lado publicitário, cria comerciais de TV e tem até momentos de dublê de marqueteiro. No intervalo, assiste a jogos de futebol do mundo todo. O suficiente para manter a língua afiada quando o assunto é a arbitragem. Da experiência dentro de campo até a das cabines de TV como principal comentarista de arbitragem do país, ele esteve em evidência por mais de 50 anos.
Arnaldo Cezar Coelho Abre Aspas — Foto: André Durão
No Abre Aspas do ge, Arnaldo, nascido e criado nas areias de Copacabana, voltou a uma das sedes da Globo, no bairro carioca do Jardim Botânico. Contou causos do mercado financeiro, da carreira em campo e foi duro com o momento da arbitragem brasileira. Crítico de primeira hora do uso do VAR, Arnaldo lamenta que árbitros usem a ferramenta como muleta e que a CBF receba dirigentes para dar satisfações. Para ele, árbitro precisa mais do que critério único, como cobra: é fundamental ter cara de mau.
Ficha técnica:
- Nome: Arnaldo David Cezar Coelho
- Nascimento: 15 de janeiro de 1943, no Rio de Janeiro (RJ)
- Carreira de árbitro: foi árbitro de futebol de praia antes de entrar para o quadro da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro em 1964. Depois, apitou para a Federação Paulista de Futebol. Foi o primeiro árbitro brasileiro e não europeu a apitar uma final de Copa do Mundo, em 1982. Também apitou a Copa de 1978. Pertenceu ao quadro da Fifa por 21 anos.
- Carreira na TV: foi comentarista de arbitragem da TV Globo entre 1989 e 2018. Trabalhou como comentarista em oito Copas do Mundo.
- É acionista e CEO da TV Rio Sul há 25 anos. Fundou a Liquidez em 1985, vendeu em 2009.
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Abre Aspas: Arnaldo Cezar Coelho
Arnaldo repete o gesto da final da Copa de 1982: ele foi o primeiro não-europeu a apitar uma final de Mundial — Foto: André Durão
ge: Primeiro, como está a vida de aposentado da TV? Segue trabalhando muito?
Arnaldo Cezar Coelho: — Trabalhando para caramba. Pô, toda hora. A TV (Rio Sul, afiliada da Globo no interior do RJ) dá muito trabalho. E eu bolo muito comercial, sabe? Essa semana eu bolei um comercial que eu acho que vai arrebentar. O melhor comercial no momento é de uma seguradora em que o Tony Ramos conversa com as pessoas. E aí eu estou com Copa Rio Sul de dente de leite, um torneio que existe há 31 anos, no qual jogam 2.000 crianças de até nove anos. Aí eu falei: “Vamos pegar dois professores, um falando no telefone com o outro. Um chega no outro e fala 'Tudo bem? Já escreveu a sua equipe para o dente de leite?'. 'Ainda não'. “Pô, procura a Secretaria de Esporte da sua cidade'. “Ah então eu vou procurar porque eu tenho um time bom aqui e tal'. É para incentivar as crianças a procurarem o professor, e o professor a procurar a secretaria. Então eu fico bolando esses comerciais. Ontem eu fui procurado por um cara que nunca anunciou na vida.
Você virou marqueteiro, então?
— Eu sou abridor de porta, rapaz. Eu trabalhei 35, 40 anos no mercado financeiro porque eu abria porta. Eu tinha cliente em Nova York. Meu inglês é de Tarzan. Eu ia para a porta de um banco, ficava lá de braço cruzado com um cara que dizia que falava inglês. “Pô, a gente vai ficar o dia todo aqui?” “Vai. Porque vai passar um cara que me conhece.” Aí o cara me levava para o diretor do banco. O diretor podia ser americano, podia ser argentino e virava cliente.
Arnaldo Cezar Coelho no Abre Aspas: ex-árbitro é crítico do VAR — Foto: André Durão
Isso foi quando?
— Em 1990, 1995. Eu parei na arbitragem e entrei na Globo em 1989. A Globo foi uma vitrine para mim. Eu ia, conhecia o segurança do banco e o presidente do banco. Até hoje eu sou amigo de vários presidentes de banco. Porque o futebol, o esporte te dá visibilidade. E eu tinha um produto bom, que era a segunda maior corretora do país.
Mas como a TV entrou na sua vida depois da carreira de árbitro?
— Eu estava em casa, o Galvão estava narrando um jogo lá no Chile, pelas Eliminatórias em 1989. O Taffarel fez uma defesa em dois tempos. Pode fazer, o que não pode é defender, botar no chão e pegar de novo. Como ele fez a defesa em dois tempos, os chilenos gritaram. O juiz era um colombiano que tinha ido comigo à Olimpíada de Seul em 88. Aí, coitado, o baixinho colombiano foi e marcou tiro indireto. O Taffarel pegou a bola, deu para o chileno, que bateu a falta... gol. Aí o Galvão: "O que que houve, Pelé?”. E o Pelé “Entende, entende...” (risos). Inexplicável. “Chico?” O Chico Anysio era comentarista, estava em Porto Alegre fazendo um show e estava ligado na transmissão. “Um absurdo, não sei o que o juiz deu”. E o Tino lá embaixo dizia “Os jogadores brasileiros estão querendo saber o que aconteceu”. A Globo não explicou o que houve.
— Na segunda-feira me ligaram, e eu tive que vir aqui (na Globo). Aí o Armando Nogueira, o Alberico (de Souza Cruz) e a Alice Maria foram ver um tipo de palestra que eu fiz explicando a todo o departamento de esporte didaticamente o que aconteceu e outros lances. Quando acabou, me chamaram para almoçar. “Você quer ser consultor da TV Globo?”. “Mas o que é isso?”. Aí eu fui. Cheguei em casa e falei com a minha mulher: “Vou parar de apitar”. Tinha 46 anos, já tinha ido a duas Olimpíadas, cinco Mundiais – dois do profissional e três sub-21 -, já tinha apitado final de Copa do Mundo e tal.
Você já tinha ideia de parar?
— Eu estava apitando já olhando o relógio, para o jogo acabar e eu poder vir embora. Por quê? Porque eu chegava em Porto Alegre e trabalhava a manhã toda visitando banco, almoçava com cliente, de tarde ia visitar outro. Às 16h eu ia para o hotel, dormia até as 18h e pouca, e às 21h eu estava fazendo jogo. Aí veio esse convite e eu disse “É a hora!”.
Arnaldo, com 39 anos, na Copa do Mundo de 1982: cumprimento ao capitães antes da final entre Itália e Alemanha — Foto: Reprodução SporTV
— Aí fiquei um mês que nem o Bozó (nota da redação: personagem de humor criado por Chico Anysio, que andava com crachá da Globo para cima e para baixo), eu ficava na garagem do prédio. Esperando passar todos os apresentadores do Jornal Nacional. Eu dizia que estava na Globo, mostrava o crachá. Mas eu sou inquieto. Um dia eu cheguei para dois produtores: “Vou bolar um negócio. A gente vai botar um lance ali atrás, eu vou entrar e vou explicar por que o juiz errou”. Começamos com o gol de mão do Maradona em 1986. O juiz era um cara do Egito que tinha parado no meio do campo, parou e ficou balançando, indeciso. Juiz quando para na intermediária e fica assim não vai ver nada. Aí o Maradona fez o gol com a mão. E eu expliquei por que ele errou. O pessoal gostou. Queriam que eu botasse teleprompter, eu falei "Não, tem que fazer uma coisa espontânea porque não sei ler teleprompter". Porque teleprompter tem que interpretar. Se o cara passar rápido demais, você se perde. Aí comecei a fazer a coisa espontaneamente, sem ensaiar, sem nada. E deu certo. Aí quando chegou na Copa do Mundo, “Arnaldo, você vai à Copa do Mundo?”. E eu fui para a Itália (1990).
No Twitter, você se define como "Ex-comentarista de arbitragem antes do VAR". Por que essa definição é importante para você?
— O VAR foi criado para a Copa de 2018. Eu estava lá. Eu sentei na primeira fila e o diretor de Arbitragem, o Pierluigi Collina (ex-árbitro italiano), chega e fala: “O VAR é o paraquedas do árbitro, o VAR vai acabar com as injustiças do futebol”. Eu achava que injustiça era gol com a mão, bola que entra e o juiz não dá. Mas eles aumentaram o poder do VAR.
— O VAR começou a se meter em tudo e, com isso, o VAR começou a interferir na arbitragem de tal forma que o árbitro transfere para o VAR toda jogada mais polêmica, um pouco mais responsável. Basta ver na Copa do Mundo, no jogo em que o Brasil perdeu da Noruega. O Brasil roubou uma bola no meio do campo. Houve um pênalti claro que todo mundo viu. Eu digo que até o sorveteiro do estádio viu. E o juiz não apitou o pênalti. Aí foi ver o VAR. Por quê? Transferência de responsabilidade, isso que é muito ruim do VAR.
— E ainda bem que eu não estou mais comentando porque o VAR mudou totalmente a regra. E eu vou contar uma história que aconteceu no “Bem Amigos”. Mostraram uma foto de um gol do Flamengo. A foto mostra o jogador do Flamengo se apoiando nas costas do jogador do Vasco. Aí um comentarista disse: “Aqui, está se apoiando”. Se tivesse VAR, não ia valer o gol. A foto era o seguinte, ele já tinha cabeceado, subiu sozinho e, na descida, se apoia porque normalmente o jogador se apoia em quem está embaixo. Eu digo “Mas a bola já está quase dentro do gol, o rapaz já cabeceou, cabeceou livre”. É porque não mostra desde o início o filme, mostra a foto do lance. E já dizia o Nelson Rodrigues, o vídeotape é burro. Hoje em dia os caras se guiam por videotape, se guiam por foto. Como pode se guiar por foto? Eu posso pisar no pé de uma pessoa no dedinho. A foto mostra que eu pisei, pênalti? Está errado. O árbitro tem que ter bom senso para ver o seguinte: aquele pisão foi depois do lance.
Até porque a câmera lenta pode transformar qualquer lance...
— Sim, eles se baseiam pela câmara lenta. Aí virou pelada, futebol de aterro, futebol de praia que antigamente não tinha juiz. Bateu no braço? É pênalti. Você tem que interpretar as 17 regras, a maioria delas é de interpretação. E quem interpreta é o árbitro? Não, o árbitro agora empurrou a responsabilidade para o VAR. Estraga o futebol. Bom juiz é aquele que tem personalidade e o VAR dorme durante o jogo, porque ele não usa o VAR. Ele apita com convicção. Agora o mau juiz transfere para o VAR.
Em São Januário, nos tempos de federação de futebol do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal
A gente falou de Twitter, uma vez você escreveu: “Depois do caixa de banco, do trocador de ônibus e do despachante de mala nos aeroportos, o árbitro de futebol é a próxima profissão que está com os dias contados”. Acha isso?
— Pode escrever. A inteligência artificial vai fazer com que o robô apite jogo. Porque o árbitro hoje é um robô. Ele está lá, cheio de gente no ouvido, “Faz isso, faz aquilo, a bola entrou, não entrou...”. O bandeirinha não precisa mais. Bota um sorveteiro de bandeirinha que ele vai ser bandeirinha. Ele fica ali, a bola sai pela lateral, ele faz para cá. Se não souber para que lado, ele olha para o juiz. O juiz deu para lá, ele bota para lá. O juiz deu para cá, ele bota para cá. Todo gol é examinado. Então para quê ter bandeirinha? Acabou. Os bandeirinhas ficam chateados comigo. Mas juiz... Olha o que eu estou te falando. Não sei se eu vou pegar, mas vai ser um robô que vai apitar.
Como analisa o momento da arbitragem brasileira?
— Muito ruim, muito ruim. Pelo seguinte. Eu vou fazer uma comparação. Se uma pessoa se forma em Medicina na faculdade, ela tem que fazer residência, estágio e aí começa a atender. Cirurgião, você tem que ver as cirurgias, vai fazer um seminário, vai se aperfeiçoar para se tornar um bom cirurgião. Árbitro de futebol, o cara se forma. E aí (gesto de lavar as mãos). Outro dia me falaram que tem um garoto aí com 20 e poucos anos que vai ser árbitro da Fifa. Qual é o currículo dele? Por quê? Você tem que aprender com seus erros e aprender com os erros dos outros árbitros.
— Apitar é convicção. “Pi!” e vai embora. Hoje não, o cara não tem personalidade para fazer isso. E outra coisa, houve a falta? Não vai lá no lugar da falta. Aponta e vai embora porque, se você for, vai dar discussão. Se você for, dá bolinho, dá aquele negócio que agora é ridículo, o juiz faz assim (cruza os braços sobre a cabeça), só conversa com os capitães. Que absurdo! O juiz não tem que conversar com o capitão. O juiz tem que tirar a cara e coroa com eles e acabou.
— Porque senão o capitão vai tomar conta de você, eles se acham no direito de discutir. Você já viu algum juiz acabar o jogo e dizer para o jogador “Você errou três gols, você tomou frango. Treinador, você errou a substituição”. Todo mundo erra no futebol. Eu falei outro dia, errar é humano. Treinador erra, jogador toma frango, perde gol, comentarista erra. Tem uma substituição, o comentarista fala “Essa substituição eu não fazia, não, porque fulano está jogando bem". O cara faz o gol da vitória. E aí?
Você sempre fala que o Armando Marques foi seu ídolo. Ele foi chefe de arbitragem e também sofreu muitas críticas. Como era?
— O Armando não dava conversa. Sabe qual é o erro dos comandantes de arbitragem? Eles dão conversa para dirigentes de clubes, para os presidentes das federações. Esses caras só veem o lado deles. Os dirigentes de clubes só querem ver coisas a favor. Você já viu algum técnico ganhar o jogo e dizer que o árbitro foi muito ruim, que prejudicou o time dele? Ele só vai lá para colher frutos, dizer que foi legal, que a substituição dele foi certa. Treinador perdeu, ele bota a culpa no juiz. Tem esse treinador que já tomou 60, 70 cartões amarelos ao longo dos últimos três anos e está aí. No meu tempo... eu não gosto de falar “no meu tempo", mas treinador ficava sentado lá embaixo, no fosso.
— Ele levantava, está expulso! Hoje tem área técnica. Ali é o palco. Ele faz (gesticulando). Se o treinador vai para a área técnica e não faz gestos, “ih, está apático esse treinador”. Virou o palco. E aí ele reclama do juiz, vai no árbitro reserva e reclama. Que direito ele tem? Tem jogador reserva que vai tomar satisfação com árbitro suplente. Expulsa na hora. Porque a impunidade estimula a violência. A impunidade permite essa bagunça toda.
Você é contra essas reuniões de revisão que a comissão de arbitragem faz com os clubes?
— Amigo, dirigente só faz ofício quando perde, aí a CBF dá satisfação. Outro dia, teve um juiz que deu um pênalti ou deixou de dar um pênalti, mandaram o ofício e eles responderam “Realmente, o juiz errou, deixou de dar um pênalti”. Não tem que dar satisfação. O presidente do clube, quantas contratações erradas ele fez durante o ano? Quando o Zico foi para o Japão, acabou o primeiro jogo dele lá, ele falou assim: “Eu perdi o jogo porque o juiz deixou de dar um pênalti”. A federação japonesa multou, acho que em US$ 10 mil. O Zico me liga: "Eu paguei a multa e nunca mais falei de juiz”. Treinador aqui no Brasil faz da área técnica um palco. Quando ele vai para o Japão, naquele Mundial de Clubes, ele ficava quietinho. Por quê? Se ele fizesse alguma coisa, estava expulso. Copa do Mundo, agora houve até exagero. Antigamente, se o treinador levantasse para ir falar estava expulso e punido. Repito: a impunidade estimula a violência.
Arnaldo Cezar Coelho Abre Aspas — Foto: André Durão
O teu início foi no futebol de praia, né?
— Eu nasci em Copacabana, meu pai trabalhava numa empresa de laboratório, com um produto chamado “Melhoral”, para dor de cabeça. Com três meses, me levou no Forte do Leme, me botou como mascote do time no colo do centroavante. Com três anos, fui na praia, num bloco de carnaval, o meu pai comigo, e eu já estava com o apito pendurado no peito. Com 14 para 15 anos, meus três professores de educação física me perguntavam “Quem quer ser xerife?”. Eu levantava o dedo. O que era o xerife? Você dividia a turma nos 50 minutos da educação física, 20 alunos em quatro times de cinco. Sorteava. Um gol, sai. E eu apitava, a aula de educação física fluía. Primeiro eu fazia a chamada. Aí eu comecei a aprender a tomar conta, a dirigir e ter comando.
— Aí na praia, eu jogava num time de aspirante. Quando chegava no jogo de cima, o juiz não aparecia porque todo juiz na praia apanhava depois do jogo. Ou, quando ele apitava, os caras tomavam o apito. “O que você deu?”. “Pênalti”. “Então me dá o apito aí”. Procurava outro juiz, esse juiz entrava. “O que você deu?”. “Pênalti”. “Não”. Cada jogo tinha três, quatro juízes que eles tomavam o apito. E aí a minha turma da praia disse: “Arnaldo, apita aí”. Porque eles queriam que eu apanhasse. Aí eu comecei a apitar na praia sem nunca ter lido o livro de regra. Aí um dia eu fui numa loja chamada Super Bowl e vi o livro de regra em espanhol. Comprei e comecei a ler. Aí eu vi que se você batesse uma falta e o jogador desse outro toque era tiro indireto. E eu “pi!”, tiro indireto porque o cara bateu a falta com dois toques. Quase que eu apanho, quase que me tomaram o apito. Eu falava “rapaz, na página 35 do livro de regra, não sei o que e tal”. Mas ali eu aprendi a primeira regra, que foi o bom senso. O que era o bom senso? Acabava o jogo, o paredão onde estava a torcida descia para bater no juiz ou jogar copo de mate com areia socada, que é quase como uma pedra.
— Aí eu aprendi que eu tinha que terminar o jogo na beira d'água. Por quê? Porque até a torcida descer do paredão para ir me bater, já tinha caído na água, já tinha mergulhado e saía a nado (risos). Algumas vezes eu saía a nado mesmo, outras vezes eu saía para esfriar o corpo. Botava o apito no bolso, perdia a camisa que eu largava no meio da água, na areia. Mas a torcida não ficava lá porque escurecia, né? E aí eu voltava sem apanhar. Ali eu comecei a fazer um curso de árbitro na federação, porque vários juízes profissionais me viram apitar na praia e falaram: “Faz o curso”. Aí eu fui estudar. E junto com isso, eu fui estudar Educação Física. Virei professor de Educação Física e árbitro da Federação do Rio.
Você começou na Federação do Rio?
— Isso, a federação (FFERJ) estava renovando e eu entrei, peguei um vento a favor. Em um ano eu apitei juvenil, aspirante e profissional, estreei no Maracanã. Um dia eu vou apitar profissional, Bangu x São Cristóvão. Dou um pênalti para o São Cristóvão faltando um minuto. Aí o Castor de Andrade, que mandava no Bangu e na federação, foi na federação. Eu estava lá entregando a súmula na segunda-feira. O Castor falou alto, a federação não tinha parede, a parede era de papelão. O presidente era Octávio Pinto Guimarães. “Esse garoto não sabe o que é time grande como o Bangu, como é que ele vai dar um pênalti contra o Bangu?" E eu escutando e pensando: “Meu Deus”. “Está vetado, não apita mais”. E o Octávio Pinto Guimarães, que era o presidente da federação, mas era mandado pelo Castor, falou para mim: “Você vai ter um tempo”. Nisso apareceu um jogo em Belém, Remo x Paysandu, e o senhor da CBF que me conhecia do futebol de praia, falou: “Arnaldo, vai apitar esse Remo x Paysandu”. Eu fui com o maior prazer, porque era a terra dos meus pais. E ali aconteceu um fato engraçado. O campo era a Curuzu, não era esse campo novo lá. Você mudava de roupa no hotel, entrava pela arquibancada, abria o cadeado e entrava no campo. Faltando 15 minutos, já estava todo mundo satisfeito com o empate. Os times satisfeitos com o empate, e eu mais ainda, né? Minha mãe que falava: “Acabou em empate, está bom, ninguém perdeu (risos)".
— Acabou o jogo, peguei um táxi, fui para o hotel, tomei banho, desci, passei no correio e passei dois telegramas iguais. Um para o diretor de arbitragem da federação, o outro para o diretor da CBD (antigo nome da CBF). “Parabéns pela indicação do árbitro Arnaldo Cezar Coelho. O jovem apitou muito bem o nosso clássico, assinado Zé da Silva”. E passei para os dois. Peguei o avião, voltei para o Rio, fui na CBD, e o diretor de árbitros “Recebi um telegrama de um grande amigo meu lá de Belém, que disse que você apitou muito bem. Eu vou te mandar em outros jogos".
Aí fui na federação. O Bragança, que era o diretor de arbitragem, disse: “recebi o telegrama de um grande amigo meu, que disse que você apitou muito bem”. Aí eu falei “muito obrigado”. Saí da sala, o Jarbinhas, que era o secretário, batendo na máquina de escrever, disse: “você é bem sem vergonha, né, Arnaldo? Passando telegrama te elogiando”. Eu digo “isso é marketing” (risos). Se eu vou para Belém e os caras me batem lá, eu entro no cacete, sai em todos os jornais do Rio: “Juiz carioca agredido em Belém”. Como eu apitei bem, ninguém fala. Juiz de futebol é isso.
"Se você marcava uma falta, um pênalti e cinco jogadores vinham te cercar, você mirava um que era o mau elemento" — Foto: André Durão
Esse jogo foi em que ano?
— Isso foi em 1968. Aí começaram a me botar para apitar Rio-São Paulo. Apitei jogo do Carlos Alberto contra o Paulo César Caju, com Gerson. Grandes clássicos de Rio e de São Paulo. E aí o presidente da federação de São Paulo me viu, me levou para São Paulo, e a minha vida foi embora. Em 1969 eu já era juiz da Fifa. Fiquei 21 anos como juiz da Fifa, apitei em todos os lugares do mundo. Não tem no Brasil um cara com 83 anos, que é a idade que eu tenho, com uma experiência de futebol e de arbitragem que eu tenho. Eu conto histórias do futebol de 1950, conto histórias que eu vi. Eu levava os árbitros para palestras no sindicato, porque era presidente do sindicato e organizava curso. O futebol evoluiu tanto que o Maracanã tinha um fosso. A bola caía, demorava um tempão, o juiz virava as costas, o narrador fazia propaganda. E tinha gandula pago pelo jogador. Tinha um gandula do Vasco que era pago pelo Fontana. O time do Vasco estava ganhando, o gandula não achava nunca a bola no fosso.
O que mais tinha de malandragem?
— Tinha um técnico, o Duque, que tinha um birro. A bola saía, ele esvaziava a bola. A outra vinha, ele esvaziava. Estava ganhando o jogo. Aí a gente apitava o jogo, bola furada, e o jogo parava. E o Dé pegava a bola e corria ao lado do zagueiro. Ele atravessava na frente do zagueiro para levar uma trombada. Aí o zagueiro perdia o freio, bum! Pênalti. Só que ele fazia isso bem feito, era um artista. Um dia, em Campos, o campo todo ruim, ele jogou uma bola na frente e foi correndo, correndo, correndo. Olhou para o zagueiro, botou na frente, caiu. Aí eu não marquei nada Ele falou “pênalti!”. Eu “pênalti? Onde estava a bola? Já está na mão do gandula, tu esqueceu a bola”, a bola já tinha saído. Porque ele esquecia a bola, entendeu?
E o bolinho em cima do árbitro, que você comentou há pouco. Sempre existiu, né?
— Mas tinha uma técnica. Se você marcava uma falta, um pênalti, e cinco jogadores vinham te cercar, você mirava um que era o mau elemento. Era aquele que já tinha sido advertido, que era visado. Tu partia para cima dele: “Vou te botar pra fora, vou te botar pra fora!”. Aí os outros jogadores, para aliviar aquele que reclamava, que era o manjado, tiravam ele da roda. E a roda era desfeita. Por quê? Porque, no jogo, o árbitro tem que chegar e partir para cima. Amarelo. “Continua, vai levar vermelho”.
— No meu tempo não tinha cartão, o cartão começou em 1970. Eu peguei muitos cartões, mas eu fiquei também sem cartão. Armando Marques falava o seguinte: “Arnaldo, o jogo não está bom, está complicado, você sabe que vai botar gente para fora para consertar, dá um tempo. Já, já dois vão se desentender, você vai dar vermelho para os dois”. Pronto. E se quiser mais, bota mais dois para fora, fica com nove em cada. Todo mundo vai jogar pianinho.
— Jogador não respeita o juiz. O jogador tem que temer o juiz. Temer é ter medo, “esse cara é maluco”. E outra coisa, juiz não pode ser relações públicas. Juiz não pode ser simpático, entrar em campo, abraçar o jogador, acabar o jogo batendo em barriga de jogador. Tinha um bandeirinha que uma vez foi fazer isso com o Messi, Messi chamou com um palavrão, foi suspenso e tal. Juiz tem que ser antipático. No meu tempo, eu vou falar de novo “no meu tempo”, ia dar saída, o centroavante ia bater a bola para o jogador do meio, e esse jogador normalmente estava do outro lado do campo. E a regra dizia que os jogadores têm que ficar no seu próprio campo. Eu chegava, “número 10, volta um pouquinho para o seu campo” e virava as costas. O número 10 tinha nome, o número 10 era o Zico.
— No meu tempo, tinha policiamento no vestiário, você enquadrava o sargento, o tenente. “Qual o seu nome? Quantos soldados você tem? Se acontecer alguma coisa, você é o responsável. Vou denunciar você ao comandante e tal”. E o cara se enquadrava todo. Eu vi várias vezes, quando era árbitro reserva, eu levava a súmula para os jogadores assinarem no vestiário. “Quem vai apitar?”. “Armando Marques”. “Iiiiih”. Os caras tinham pavor dele. Eu aprendi isso. O juiz tem que ser respeitado, o jogador tem que ter medo. Porque o jogador, se sentir que vai reclamar e não vai acontecer nada, ele vai tomar conta do juiz, vai tomar o apito do juiz como tomavam no futebol de praia. Não pode! “Ah, mudou tudo”. Mudou. Hoje o juiz tem que bater papo. A relação tem que ser amistosa, não sei o quê. Futebol é diferente, tem que ter limite. É igual ao patrão, você tem que cobrar. Patrão que não cobra não tem sucesso. Patrão que deixa correr está errado. Cobra, porque aí os garotos vão melhorar. Em qualquer atividade.
Aquela transmissão em que o José Roberto Wright entrou com microfone num Vasco x Flamengo. Do que você se lembra desse episódio?
— Eu apitava na época. Três homens daqui de dentro (da Globo) bolaram que tinham que escutar o papo do juiz, que devia ser interessante. E aí combinaram com o Wright de ele botar o microfone. No primeiro dia que foi botar o microfone, falhou a bateria, e ficou para o outro jogo dele. O bandeirinha sabia que ele tinha microfone. E o Zé fez o jogo, chamava o Dinamite pelo apelido. Aí para o Geovani, que faleceu há pouco tempo, do Vasco, ele dizia “Deixa de ser folgado!" E foi uma repercussão muito ruim, a federação até o suspendeu por 30 dias. Me lembro que o Armando Nogueira, para dar força, porque foi uma ideia de três executivos da Globo, trouxe ele para fazer o programa de domingo.
— Ele fez uma coisa que o pessoal não gosta muito, que é você tornar público um diálogo dentro de campo. Porque era uma época ruim, ainda estava saindo da ditadura. Diziam que era um comportamento de dedo duro, aí não pegou bem. Mas o Zé não se arrepende. Foi legal.
Aquele tratamento era o normal?
— Olha, juiz de futebol tem que ser curto e grosso. Quando eu digo curto e grosso, é chegar e dizer “Está errado!”. E virar as costas. Aí o cara vem falar, você diz “Respira fundo”. Aí o cara respirava. “Se repetir, está expulso”. Virava as costas e ia embora. Porque se você desse papo, imagina... Eu apitei jogo do Rivellino. Se você partisse para cima do Rivellino e desse uma bronca nele, ele iria te xingar, você teria que botar para fora. Então você ia lá, falava e virava as costas. E outra coisa, eu conheci o melhor juiz, ele era surdo. Acabava o jogo, ele ficava no meio de campo, rindo assim, porque não escutava nada de ofensa, cumprimentava os caras (risos). Aí um dia o Zé Mário Vinhas operou o ouvido, começou a escutar. Putz, foi um desastre como árbitro. Então tem horas que o juiz tem que virar as costas e ir embora. Ainda mais porque o palavrão, no futebol, você tem que interpretar. Tem jogador que diz palavrão que é um desabafo. E tem jogador que diz palavrão que é ofensa. Você tem que interpretar se ele está te ofendendo ou se ele está xingando ele mesmo.
— O Santos jogava ao som do palavrão. Eu apitei com Pelé, Coutinho, todo aquele time maravilhoso. O Santos em 1968 foi campeão do Campeonato Paulista, eu apitei 28 jogos, uns 14 do Santos. Era um timaço. Tomava um gol, ia lá e fazia cinco. Jogava ao som do palavrão. Quando acabava o jogo, todo mundo se abraçava. Eu ficava olhando, ninguém levava a sério aqueles palavrões. Armando Marques apitava o jogo, chegava para o Coutinho: “Se falar palavrão, está expulso”. E botou (para fora), porque o Coutinho xingou o Pelé (risos). Enfim, o palavrão é isso, você tem que interpretar no futebol.
Pela Federação Paulista, Arnaldo acompanhou o Santos de Pelé: "Eles jogavam ao som do palavrão" — Foto: Arquivo pessoal
Existem pessoas que defendem que os árbitros deem entrevistas depois dos jogos. Qual a sua opinião sobre isso?
— O árbitro dar entrevista depois do jogo é igual ao batom no colarinho. Tem explicação para batom no colarinho? Não tem. O árbitro que for dar entrevista, que deu um pênalti por causa disso, deixou de dar um pênalti por isso... Torcedor, a palavra já diz, ele torce os fatos. Por mais explicação que ele dê, nunca vai ajudar, então é melhor ficar calado. Os caras botaram câmera na linha do gol. Aí o jogador tirou a bola em cima da linha. O cara elogia “Hoje tem VAR”, mas tem cara questionando se a bola entrou ou não entrou. Isso acontece toda hora. Então não, não adianta dar explicação.
— Se chegar em casa com batom no colarinho, você está perdido, né? É a mesma coisa. O juiz vai explicar por que deu pênalti ou por que não deu? Fica calado. E outra coisa: a polêmica é domingo e segunda. Chega quarta, tem outra polêmica, todo mundo esquece. O Armando Marques dizia: “Arnaldo, se apitou mal no domingo, e é normal você apitar mal, na segunda-feira some, não lê jornal, não aparece, não dá entrevista. Se for trabalhar, vai na moita. Quarta-feira vai ter uma lambança maior do que a tua”. Porque tem sempre lambança, futebol sempre tem polêmica. Os caras inventaram o VAR dizendo que não ia ter mais polêmica.
Mas você gosta da ideia da profissionalização da arbitragem, de separar um grupo e pagar mensalmente como prestador de serviço?
— Eu fui profissional de arbitragem, eu tinha contrato na Federação Paulista para apitar quatro jogos por mês. Vai ganhar “X”. E eu apitava oito, dobrava meu salário. Mas eu tinha outra atividade. Por quê? Para me dar liberdade, para não depender do futebol. Porque, se você depende do futebol, você pensa duas vezes. O juiz que entra em campo para agradar acaba desagradando. Já que você tem uma atividade fora que é rentável e da qual dá para viver, você apita com personalidade. O profissional de hoje em dia não tem tempo para nada. Ele acaba o jogo no domingo, vai para casa. Na terça ele já está indo para outro jogo. Ele é apenas domingo, quarta, domingo. Enfim, era para apitar quatro jogos por mês, mas não apita, apita muito mais. “Ah, a profissionalização na Inglaterra dá certo”.
— Meu amigo, não compare o futebol brasileiro com o futebol inglês. Na Inglaterra, na Alemanha, se você atravessar fora da faixa, vai ser multado. Na Alemanha, eu estava na Copa do Mundo de 74, a primeira Copa a que eu fui assistir. Eu atravessei uma rua fora da faixa e quase fui preso. Aqui no Brasil é comum, então não adianta. Vão reclamar, vão criticar. “A regra é clara”, que eu falo, é muito difícil. Porque o cara, quando faz uma regra clara, tem mil pessoas querendo burlar a regra.
O que você acha dos valores de salário (cerca de R$ 22 mil) dos árbitros?
— Bom, bom. Porque ele apita dois, quatro jogos, aí apita Libertadores. Apita mais, ganha mais. Só que antes ele ganhava só durante os meses em que isso funcionava. Agora ele ganha o ano inteiro. Isso dá mais segurança a eles, mas ele tem que ter outra atividade. Ainda mais porque o futebol dá visibilidade a você. Eu mesmo procurei sempre ter outra atividade, e o futebol foi a maior vitrine da minha vida. Eu tenho em casa uma bola. Eu graças à bola, eu fui para o mercado financeiro, ser agente autônomo. Virei diretor de banco, virei dono de instituição financeira, que me deu uma independência financeira boa. Mas foi o esporte, foi o futebol. Por que eu fazia isso? Para ter uma segurança, para dentro de campo poder cumprir a regra e cumprir as leis sem depender. Quando você apita, você não pode pensar nas consequências. Você não pode pensar “Se eu der um pênalti, o time tal vai me vetar”. Nada. Você tem que contentar a sua consciência.
Você chegou a ter cliente jogador ou dirigente?
— Nunca. Só tinha banco e fundos de bancos, porque eu nunca tive pessoa física. Eu tinha amigos que perguntavam “O que eu faço?”. Aí eu faço igual médico quando tira radiografia. “Seu dinheiro está onde?” “Está assim, assado...”. A primeira regra é diversificar, não botar num lugar só. E aí dava umas dicas. Mas nunca tive jogador de futebol como cliente, nem queria. Eu tinha independência, não queria ficar preso. Eu ia visitar presidente de banco, diretor de banco, muitos deles eram diretores de clube, e eu não dava nem conversa. Eu ia lá, falava. Tinha um camarada que ligava pra mim “Você roubou meu time”. Botava o telefone aqui (de lado). Queria usar da situação de ser meu cliente no banco. Eu era corretor do banco, não era corretor dele, mas ele fazia isso para falar pra todo mundo “Avacalhei com o Arnaldo”.
Você foi árbitro em duas Copas. Quais são as principais recordações?
— Eu fui à Copa do Mundo da Argentina em 1978, e o Brasil se classificou para jogar terceiro ou quarto. Eu fui o árbitro reserva da final. Quem apitou foi o (Sergio) Gonella, um italiano. A Argentina ganhou na prorrogação. Quando acabou o jogo, a bola caiu perto dos jogadores, mas o Gonella estava do outro lado do campo. Eu entrei em campo, peguei a bola e trouxe para o vestiário. Chegou lá dentro, eu esvaziei a bola e botei na mala do Gonella. E aí, quando chegaram os membros da Fifa: “Cadê a bola, cadê a bola?”. Queriam a bola, falando em inglês e tal. Aí eu falei “Está ali, ó, tem quatro bolas pra levar”. E aí levaram quatro bolas, e a bola da final do jogo da Argentina o Gonella levou para casa.
— Vai para a Copa do Mundo da Espanha em 1982. Eu tenho 39 anos e os juízes tinham 49. Juízes com nome. Abraham Klein, que tinha apitado já da Copa de 70, vários juízes. Apitei um jogo só, Alemanha x Inglaterra. Foi um jogo legal, 0 a 0 em Madri, no Santiago Bernabéu. Acabou o jogo, o Rummenigge veio me cumprimentar, agarrei a mão dele. Ele falava em alemão, eu falava em português, a câmera mostrou. Eu acho que a Fifa gostou. O Brasil foi eliminado pela Itália, eu tinha parado de treinar porque ia virar turista porque, quando o país não se classificava, o juiz virava turista. Mas eu voltei a treinar.
Você se lembra do momento em que recebeu a notícia de que seria o árbitro da final da Copa de 1892?
— Aí o que aconteceu? Quando chegou na quinta-feira, o telefone toca. “Parabéns, você vai apitar a final no domingo”. Eu: “Muito obrigado", não sei o quê. Levei um susto. Por quê? Porque eu era novo, eu estava sendo guardado para um jogo de semifinal, mas não apitei semifinal nem nada. E me botaram na final. Meia hora depois, eu estou ligando para o Brasil. Mandei mensagem para o meu irmão, mensagem para o Armando (Marques), convidando ele para ir ao jogo. Ele não queria ir.
— Eu entro em campo, vejo um papel, tipo uma carta. Meu Deus, não vou ler essa carta porque a última que eu tinha lido no Equador, em Quito, dizia "Se minha equipe perder, tú eres um hombre muerto”. “Pô, vou receber uma carta dessa na final da Copa do Mundo? Aí o fotógrafo do Jornal do Brasil diz: “Arnaldo, lê”. Era do Globo, era uma carta de todos os jornalistas brasileiros que estavam na sala de imprensa falando “Arnaldo, apite por todos nós”. Até me emociona isso.
— Eu vou para o jogo. Antes do jogo, o Abraham Klein falou: “Arnaldo, se acabar empate, vai ter novo jogo na terça-feira”. O regulamento dizia que, se acabasse em empate, teria novo jogo na terça-feira. E ele apitaria. Eu, comigo: “Não vai ter empate esse jogo, né? Vou deixar de apitar uma final de Copa do Mundo?". Aí vou para a final, apitando e tal. Com 15 ou 20 minutos, dou um pênalti a favor da Itália, cujo presidente, eu fui saber um ou dois meses depois, tinha ido reclamar com o Havelange porque botaram um juiz brasileiro. Já que o Brasil tinha sido eliminado pela Itália. “Ele vai se vingar da Itália”. Eu não sabia disso. Aí dei um pênalti a favor da Itália. Dei o pênalti e corri para o fundo, ninguém falou nada. O cara foi bater, bateu para fora. Aí respirei fundo. Porque é assim. O juiz, quando o cara bate para fora, respira aliviado. Por quê? Você imaginou se uma Copa do Mundo acaba 1 a 0, com gol de pênalti. Iam estar discutindo até hoje se aquele pênalti foi ou não foi (risos).
Teve problemas nesse jogo?
— O jogo correu. A Alemanha, que tinha jogado na rodada anterior um jogo com prorrogação, cansou. E a Itália ganhou de 3 a 1. Eu lembrei: “Pô, vou pegar essa bola”. Porque, hoje em dia, não pode falar o que eu falei na época. Na época eu falei “Vou roubar a bola”. Hoje eu falo “Vou pegar a bola”. Houve um lateral. Não tinha árbitro reserva, com tabuleta, quantos minutos faltava... O que mandava era o meu relógio. Jogo 3 a 1, faltando 10, 15 segundos daria a mesma coisa. O cara foi bater o lateral. Eu disse: “Não vou lá pegar a bola porque, se eu for lá, o cara vai ver que é para terminar o jogo, vai pegar a bola e jogar na arquibancada. Eu vou perder a bola”. Aí ele bateu o lateral, dois jogadores italianos se meteram no meio, eu vi que um ia passar para o outro, eu me meti no meio. A bola estava no chão assim. Eu peguei a bola, o apito estava na boca. Eu “priii!” e levantei a bola. Ficou tão legal, tão legal. Se eu soubesse, eu ficava mais tempo com a bola assim (risos). Aí levei para o vestiário e esvaziei a bola. Primeiro eu fui na tribuna e tentei dar para o Rei da Espanha. O doutor Havelange disse “Não dá, não, essa bola é sua”. Eu fui no vestiário e guardei na mala. O cara da Fifa: “A bola?”. Eu disse “Tem quatro, cinco bolas, pode levar”. E a bola estava lá. Eu não mandei para vestiário dos países porque iam me roubar a bola.
— Passaram 23 anos, de 82 para 2005. Eu fui na Alemanha apitar um jogo de festa do time alemão contra o time italiano, só não jogou o goleiro da Itália, o Zoff. Aí eu fui lá, teve um jantar com o time italiano e com o time alemão. Eu levei a bola e peguei a assinatura de todos os jogadores, Breitner, Stielike... Esse Stielike deu trabalho pra burro, era um jogador que falava espanhol porque jogou no Real Madrid, reclamava e eu ignorava. Chegou lá no jantar, ele era um velhinho (risos). “Parabéns”. Então 20 anos depois eu peguei a assinatura de todos os jogadores. Tenho do centroavante que morreu, que fez gol contra o Brasil, o Rossi. Depois, ele veio para o Brasil, e eu fiz uma matéria para a TV Globo mostrando a bola para o Rossi. A mulher do Rossi queria a bola, eu disse “Não, não, essa bola é minha”.
"Então 20 anos depois eu peguei a assinatura de todos os jogadores", conta Arnaldo com a bola da final de 1982 — Foto: André Durão
Mas nunca te ofereceram nada?
— Ofereceram em um leilão na Inglaterra, queriam uma bola para botar lá. Disseram “vai dar 400, 500 mil (euros)”. Eu disse: “eu lá quero saber disso”. Não vou ficar mais rico ou mais pobre por causa de uma bola, a bola eu guardo. O meu neto que às vezes chega em casa e quer bater bola. Eu: “não, guarda a bola” (risos). É um trunfo, é o meu troféu.
Quando você acha que vamos voltar a ter um árbitro brasileiro apitando uma final de Copa do Mundo?
— Nessa Copa eu pensei. Mas como eles botaram na abertura um brasileiro, e tinha outros juízes com prestígio, com final de liga e essas coisas, eu falei: “é difícil”. Mas eles quase botam. O juiz que apitou a final é um juiz muito experiente. Mas a participação dos três brasileiros foi muito boa. O Wilton (Pereira Sampaio) apitou a abertura, o (Raphael) Claus foi muito bem. Teve polêmica porque o Claus expulsou o jogador americano que o Trump pediu para anular a suspensão.
— E o outro foi o rapaz novo, o Ramon Abatti Abel, que tem chances de ir para a próxima Copa e tem que receber muitas instruções. Ele está apitando direito, com cara feia que eu gosto. Juiz tem que ter cara feia. Já viu o juiz ficar rindo? É cara feia.
Ramon Abatti Abel foi suspenso por um bom tempo. Como você vê esse tipo de punição ao árbitro?
— Eu fui suspenso. Eu aprendi com o meu erro. Eu estava apitando jogo do São Paulo, um jogador deu um balão lá no alto e eu fiquei olhando a bola. Quando eu desci o olhar, vi o atacante sendo empurrado dentro da grande área. Eu: “Pênalti!”. Pô, a falta foi na intermediária, o primeiro empurrão foi na intermediária. Eu olhei para cima. A gente não pode olhar para cima, tem que olhar para baixo. E, naquele lance, eu estava muito próximo. O árbitro de futebol não pode ficar muito próximo, porque é tudo muito rápido. Você tem que ficar à meia distância para poder interpretar. Então, eu também já fui punido.
— O juiz de futebol se forma, depois tem que ter aprimoramento. Ele tem que corrigir os seus erros e olhar os erros dos outros para não repetir. E tem um negócio mais importante na arbitragem, que é ter um critério único. Os árbitros brasileiros não têm critério único. O mesmo árbitro apita pênalti em lance de último homem, de perigo de gol. Tem que ser expulso. O árbitro expulsa. Esse mesmo árbitro, no outro jogo, dá amarelo. A falta de critério é onde os instrutores têm que bater.
— Hoje tem um negócio que não tinha na minha época. Antigamente, o instrutor da Fifa vinha dar palestra, chamava dois jogadores, um empurrava o outro. “Isso é falta, tranco é ombro com ombro, ele empurrou com as costas, pé dele atingiu no alto, pé é lá embaixo". Mas ele botava dois jogadores. Hoje você tem a televisão, você tem filme de todos os jogos, filmes de todos os lances. E não mostra um lance só, não. Isso é a instrução, é você dar aula didaticamente.
Se tivesse VAR nessa época, com jogos mais violentos, como iam terminar esses jogos?
— Ah, uma perdição. Na primeira coisa que o VAR fosse se meter na arbitragem, eu ia tirar o fone e largar assim. Você dirige um carro escutando rádio, um trânsito tremendo, telefone toca, você fala no telefone. A pessoa do teu lado está dizendo que você está no caminho errado, as crianças brigando atrás. Você não está focado no carro, vai bater. O cara freia na sua frente, você bate. Juiz é a mesma coisa. Como é que o cara pode apitar o jogo focado com os bandeirinhas falando no ouvido, o árbitro reserva falando no ouvido, VAR falando no ouvido? Não tem como se concentrar, não tem como focar no jogo. Eu dou sempre esse exemplo. Meu irmão, não fala nada, deixa o cara ficar focado no jogo. Por isso que ele tem que ter personalidade e apitar com personalidade. O árbitro que apita com personalidade, o VAR pode dormir na cabine.
Por que você nunca falou o teu time de coração?
— Juiz de futebol não tem time, não tem mãe. E, no meu tempo, eles duvidavam da sua sexualidade (risos). Não tem mãe porque a mãe vai sofrer. Minha mãe, coitada, falava assim: “Quando é empate, eu fico satisfeita que ninguém reclama”. Ela entrava no táxi e dizia “Sou mãe do Arnaldo”. Eu digo “Mãe, não fala isso, o motorista do táxi pode brigar com você”. Aí chegou um ponto em que ela entrava no táxi: “Eu sou mãe do Arnaldo, juiz de futebol, e mãe do Ronaldo Cezar Coelho, deputado federal. “Mãe, você vai levar dois cacetes” (risos). Outra coisa, todo juiz, toda pessoa tem um time de criança, mas eu me tornei árbitro tão cedo que eu me desliguei de torcer. Eu não conseguia torcer para a seleção brasileira. Apitei vários jogos da seleção brasileira, naquela época juiz brasileiro apitava o jogo da seleção brasileira. Apitei jogos da Seleção contra Japão, Suíça, Polônia no Morumbi. Apitei vários. Eu tinha que ser frio, eu tinha que ser neutro. E pior: ser comentarista de arbitragem de jogos do Brasil. O 7 a 1 era terrível, eu tinha que assistir firme. E, quando tinha jogo com alguma polêmica, o Galvão “Opa, pênalti”. Eu dizia “Calma, não foi pênalti, veja na repetição que ele pisou no buraco”. Por quê? Porque eu tinha que ser neutro. Eu tinha que ter credibilidade para isso, eu tinha que ser isento. Isso eu aprendi comentando futebol. Hoje eu assisto a futebol e torço sempre para um time. Geralmente, o time mais fraco. E fico prestando atenção na arbitragem. Não só no futebol, mas no vôlei, em tudo, todos os esportes. Porque é natural. Mas eu tento que ser isento na hora de julgar.
O que foi mais difícil para você: aposentar-se da carreira de árbitro ou de comentarista?
— Tudo na vida são fases. Quando eu apitava futebol, eu falei “A minha fase de juiz acabou”. Comentarista foram quase 30 anos, visitei o mundo todo vendo jogos, comentando os jogos. Chegou um momento em que eu tinha que me dedicar à minha vida particular. Já tinha 70, quase 80 anos. Chegou uma fase que acabou. É triste, você fica com saudade. Toda vez que eu entro no estúdio da TV Globo eu me emociono porque foram 30 anos, eu só fiz amigos, desde os auxiliares, pessoal do áudio, cinegrafistas, enfim, até a direção da empresa. Foi uma grande escola para mim, hoje eu tenho uma afiliada da Globo, então eu estou dentro da TV Globo. Mas toda a vida é fase. Tudo na vida é isso, estou me dedicando à família, que eu não pude me dedicar.
Você costuma fazer esse exercício de olhar para trás e ver o que conquistou na vida?
— Eu sou muito grato à minha história, grato a tudo que eu conquistei. Tudo tem um preço. O que é o preço? É a família poder ter reclamado, os filhos podem ter reclamado que eu fui um pai ausente em alguns fatos. Mas eu fiz uma carreira da qual eu me orgulho. Hoje eu chego num lugar, me orgulho quando me reconhecem, me orgulho quando vou num lugar que é propriedade minha. Isso foi fruto do meu trabalho. Me orgulho de ter uma afiliada da Globo com 170 funcionários que funciona corretamente, fruto do meu trabalho. Isso me gratifica. Não sei quando eu vou parar de trabalhar. Porque o dia que eu parar de trabalhar, eu não sei como é que vai ser, mas eu sou muito orgulhoso da minha vida. E, se tivesse que começar tudo de novo, eu voltaria a apitar na praia, voltaria a sair a nado, voltaria a levar a súmula para casa e meu pai reclamava: “Xingaram a sua mãe, xingaram a minha esposa?”. Eu falava “Xingaram”. Enfim, eu repetiria tudo
Como é essa história de que você vendeu empresa para um secretário do Trump?
— Ele é o secretário de Comércio atual. (Howard) Lutnick. Em 2009, eu já não tinha mais vontade de ter uma corretora de BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) que eu tinha. E apareceram os estrangeiros para comprar, um dos maiores corretores do mundo. Eu falei “Não quero vender, não sei o que e tal”. Mas tinha os funcionários, que queriam sair também. Eu também não tinha filho para tomar conta da corretora. Eu não estava com mais vontade. E aí foi essa corretora que comprou. Eu falava aqui no Brasil com meu advogado e meu intermediário, os advogados dele falavam com um moço lá nos Estados Unidos, que era esse ministro do Trump. E ele é o braço direito do Trump.
Durante todo esse tempo, você foi alvo de algum protesto? Algum torcedor, dirigente?
— Toda hora tinha um. Tinha um presidente no Flamengo, já falecido, que dizia: “Hoje é o Arnaldo, se o Flamengo perder, eu não sei como é que vai ser a vida dele”. Me ameaçando. Aí eu entrava em campo e apitava. Fui vetado por cinco ou seis anos em jogos do Flamengo. Nesse período, apitei duas Copas do Mundo pra mostrar que, mesmo sendo vetado por um dos clubes mais populares do Brasil, eu apitava. Por quê? Porque era uma maneira de ele pressionar os outros árbitros. Esse presidente era isso. Um dia ele me chamou de ladrão no jornal. Aí eu botei na súmula “Me chamou de ladrão no jornal”. Foi para o tribunal, ele falou que não, que não tinha chamado de ladrão, porque é comum a palavra ladrão no futebol. Se o jogador pega a bola, o cara grita “Olha o ladrão, olha o ladrão”. É um jogador que vem por trás. Então um ladrão não é ofensa. E foi absolvido.
E como comentarista, algum árbitro ficou bravo?
— Os árbitros não gostavam e não gostam de ser criticados. Às vezes o árbitro chegava no aeroporto e falava: “Arnaldo, você falou um lance assim, assim, assim, assim cuidado, hein. Você exagerou, eu posso entrar na justiça”. Aí eu falei: “tudo por dinheiro?”. Eu nunca ofendi ninguém. Eu nunca critiquei um juiz por ter apitado errado um pênalti que eu achava que tinha sido e ele não marcou. É interpretação. Eu criticava quando o árbitro não exercia sua autoridade. Árbitro de futebol tem que exercer autoridade, a regra é clara. Ele tem autoridade, ele que manda no jogo. Mas, não, ele transfere. Transfere para todo mundo a autoridade dele. Então eu já falava isso. Mas, depois, com o tempo, eles foram vendo que eu estava ali para fazer com que eles melhorassem tecnicamente. Eu fazia comentários explicando por que ele apitou mal.
— Tem diferença do árbitro que apita com o apito à mão para o árbitro que apita com o apito na boca. Você já viu essa diferença? O árbitro com o apito na boca apita mais em cima. Mas, se ele for muito ansioso, ele assopra com ansiedade. Ele erra porque, às vezes, apita com ansiedade. Então tem que ter equilíbrio, mas tem técnicas para isso. O árbitro que corre muito em cima da bola não enxerga direito, melhor é aquele que está à meia distância, que não está longe. Então o árbitro é igual ao jogador: com o tempo, ele vai conseguindo os caminhos melhores em campo.
— É igual na estrada, você descobre os caminhos melhores quando tem engarrafamento. O árbitro consegue uns caminhos melhores. E, conversando com o jogador, você aprende muita coisa. Com o tempo você vai aprendendo. Para isso, você tem que estudar futebol. Eu sou professor de Educação Física, sou técnico formado e me preparei pra fazer toda essa minha carreira.

