O furo tinha cerca de 23 centímetros de diâmetro. A profundidade, porém, chegou a 12.262 metros: mais do que os aproximadamente 11 quilômetros da Fossa Challenger, o ponto mais baixo dos oceanos.

No Poço Superprofundo de Kola, aberto no extremo norte da então União Soviética, o plano era alcançar 15 quilômetros. Os perfuradores esbarraram numa dificuldade que não se resolvia apenas com uma broca melhor: a rocha quente se deformava e invadia o furo.

O projeto começou em 1970 e teve tentativas de aprofundamento até 1992. Além do calor acima do esperado, o fim do financiamento após a dissolução soviética encerrou a busca. Mas as amostras já haviam mostrado que o subsolo não seguia exatamente o desenho previsto pelos geólogos.

Cinco quilômetros de tubos presos no fundo

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital) Fora de escala; vermelho indica calor, não magma.

A perfuração começou em 24 de maio de 1970, a cerca de 10 km da cidade de Zapolyarny, na península de Kola, segundo um artigo de 2021 de três geólogos da Academia Russa de Ciências que participaram do estudo do poço, publicado na revista Arktika i Sever.

Em 1979, o SG-3 ultrapassou o recorde americano da época, de 9.583 metros. Em dezembro de 1983, chegou a 12.000 metros. Em 1984, um acidente deixou 5 km de tubos presos no fundo, e parte do caminho teve de ser refeita por um ramo lateral.

Os 12.262 metros finais foram alcançados em 1989, segundo o programa educativo EarthDate. O artigo russo de 2021 situa o recorde em 1990. As fontes concordam no número, não no ano.

A camada esperada não apareceu. A água, sim

A geologia da época supunha que, numa região tectonicamente calma, a temperatura subiria devagar com a profundidade, e o fundo do poço ficaria a cerca de 120 °C. Na prática, os sensores marcaram 180 °C a 10 km e 212 °C perto dos 12 km, segundo o artigo de 2021. Reportagens ocidentais resumem o episódio como 180 °C, quase o dobro do previsto: o EarthDate fala em 100 °C esperados, e a BBC Future, em 2019, em “o dobro do que se esperava àquela profundidade”.

Nessa temperatura, a rocha passou a se comportar de modo plástico, deformando-se e invadindo o furo, o que dificultava avançar e manter o poço aberto.

A segunda surpresa foi o que não apareceu. Os levantamentos sísmicos indicavam uma mudança de granito para basalto a 7–8 km de profundidade. A broca nunca encontrou essa transição. Até cerca de 6,8 km, atravessou rochas vulcânicas e sedimentares; abaixo disso, rochas do éon Arqueano, incluindo gnaisses e anfibolitos, segundo os geólogos russos.

A terceira foi água. Entre 9 e 12 km, a equipe encontrou rochas fraturadas saturadas de água muito mineralizada, algo que se acreditava possível apenas em profundidades bem menores. À BBC Future, o geocientista alemão Uli Harms lembrou que, quando os russos anunciaram ter achado água livre, a maioria dos cientistas simplesmente não acreditou.

Houve achados discretos: ouro e prata mineralizados entre 9,5 e 11 km, descritos pelos geólogos russos, e, segundo o EarthDate, microfósseis intactos de 24 espécies, com cerca de 2 bilhões de anos, a uns 6,7 km.

O limite foi geológico — e financeiro

A equipe tentou aprofundar o poço até 1992, sem conseguir passar da marca de 12.262 metros. Com a dissolução da União Soviética, o financiamento desapareceu. Em 1995, todo o trabalho científico foi encerrado e o poço, lacrado. O local foi abandonado em 2008.

Mesmo sendo o furo mais profundo já feito, o SG-3 atravessou só cerca de um terço da crosta continental daquela região, e 0,19% da distância até o centro da Terra, pela conta do EarthDate. Não chegou perto do manto.

E a história de que a perfuração parou porque microfones captaram gritos nas profundezas? O EarthDate a trata como rumor persistente e sem base. O que interrompeu o projeto foi calor, deformação da rocha e falta de verba.

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